12 de Junho de 1890.
Querido Purandar. Lhe escrevo mas nunca lhe mando. É como a minha
vida. Às vezes penso em nossa forma de sentir e de nos relacionarmos
com o nosso Deus. Se Deus existe, devo à Ele a minha dor.
Porque se ela existe, é porque a minha inteligência me
comprova que Deus não existe. E se existe de fato, Ele então
é o responsável por tudo aquilo que jamais consegui realizar.
Você diria, que sem dúvida é muito fácil
colocar a culpa em um só Deus, ou na dúvida de sua existência.
Mas é assim que me sinto hoje. E assim que vivo. - Casada?! Sim!
Casada. Com Satish, seu irmão, Purandar. Que ironia, não?!
Quais são as voltas que Deus insiste em dar para nos provar
a sua supremacia. Quantas foram as vezes, como agora, que realmente
acreditei em tudo o que você me dizia:
"-
Ser ateu é bem melhor, porque nunca se tem contas a prestar com
ninguém. Fazer bem ou o mal, é simplesmente pura perda de
tempo." Lembro-me bem dessas suas palavras, Purandar, meu amor.
E o tempo? Hoje me pergunto infinitas vezes. Para quê o tempo
nos serve realmente? Ou será, que servimos ao tempo sem nos darmos
por conta? Quando desembolso das lembranças, o ‘Lago da Fronteira’,
imagino o que seria do futuro se não houvesse um passado;
o quê seria do meu passado calmo, se não fosse haver esse
presente atormentado?
"- Mas é assim que se vive...", você diria.
"Empurrando ao mesmo tempo a carruagem e a bagagem pelo caminho,
senão Deus pouco se contenta."
O mestre me surpreendeu em mais uma carta, Purandar. Shiva, seu irmão,
com seus olhos serenos e meigos, aterroriza minh’alma, abalando a minha
dignidade e vontade de viver. O seu ar por vezes, austero, não
parecem pisar o mesmo chão das suas sandálias que arrastam
o pó da aldeia; São roupas simples demais, dentro de um
ser aparentemente compreensível, só que é o mais
indigno véu que ainda existe em meus dias.
- Shiva!? O quê faz aqui?!
- As jóias... preciso delas...
E
como se o ventre de minh’alma lhe pertencesse, Shiva interrompe as minhas
horas como se elas nada representassem, Purandar.
-
Não, Shiva. Jamais. Minhas jóias me foram dadas por meu
pai, e a ele serão devolvidas.
- As jóias
de nada servem a uma alma como seu pai, Damini.
- Os últimos lamentos e suspiros de sua vida, serão vividos
com tudo o que ele conquistou, Shiva. Jóias não foram
feitas para ornamentar deuses de barro, nem imagens enternecidas pelos
homens.
- Se Ele lê as almas, Damini, sabe também que as dores
do corpo não serão cobertas por colares de ouro.
- E se de ouro as almas quiserem ser cobertas, Shiva. Por quê
não deixá-las?
Às
vezes, Purandar, o meu prazer está em fazer o mestre de Shiva parar
e questionar os seus caminhos e decisões. O Mestre mudou a cabeça
de Shiva.
-
E se de ouro as almas quiserem ser cobertas, Ele na sua misericórdia,
compreenderá que eu tentei nos livrar do erro e da miséria
que nos assolou. Seria o eterno poço do remorso senão consegui
então salvar os homens da fome, só porque não modifiquei
os seus valores.
-
Miséria, Shiva? Se a vida fosse mais bela, eu louvaria a loucura
da morte sete mil vezes.
- Valeria à
pena morrer sete mil vezes, Damini, diante da maravilha que é esta
sua vida?
-
Não zombe da sorte a que me destinou, Shiva. A verdadeira beleza
do mundo você nunca ousou mostrar e revelar aos aldeões da
aldeia.
- Você pensa que a mão dos deuses ou as minhas mãos
sempre estão sobre a sua loucura, Damini. Em verdade você
pouco sabe de si mesma, e dos atos que pratica contra ti mesmo.
- Ah, querido Shiva, com os mesmos passos que você levanta
o pó da aldeia quando arrasta as suas chinelas, o mestre segue
arrastando a areia, displicente, apagando-os. Só você
não os percebe.
À todo instante me cobram de não corresponder ao amor
de Satish, querido Purandar. O pior é não saber se
o terror encontra-se em não viver o amor que se ama, ou naquele
que o desconhece.
Eram tempos de 1888, muito antes de Shiva...
Querido Purandar. Satish vê em mim o que não sou. Os perfumes,
os movimentos... Recusa-se a aceitar a vida, tanto quanto a vida
recusa-se a aceitá-lo. O mesmo confronto de quando ele era
menino, lembra-se? Ser aquilo que ama ou ser aquilo que não reside
em si? Devotado e tolo. Um amante e guerreiro de si mesmo. Confesso
que por vezes é difícil rejeitá-lo por ser fácil
demais amar alguém como ele. Às vezes, de tão desprendida
que me encontro, sinto que Satish começa a se assemelhar à
si mesmo. Principalmente, quando ele irrompe o meu quarto em minhas
horas frágeis e gentis com os olhos molhados da amargura:
-
É melhor não esfregar os olhos da poeira, Satish.
-
Estava só lhe percebendo... Me dizem que eu deveria ser diferente
com você, não tolerar os seus caminhos, Damini...
-
É melhor então, ainda, não responder às palavras
que o rodeiam, Satish.
- Falam de ti, Damini...
- A calúnia é o meu tesouro. O que falam de mim,
não me importa...
- ...você
quer dizer que são palavras que não falam à alma?
-
Não, Satish. Eles não são mentirosos.
- Não
entendo ! Por quê joga comigo, Damini? Procuro sempre ser condescendente com tuas atitudes, e...
- ...Os mentirosos não existem, Satish, porque nem acreditam
naquilo que dizem. Eu pouco preciso das palavras dos aldeões
ou da resposta de suas atitudes, para que influenciem o meu comportamento.
É fácil também odiá-lo, às vezes,
Purandar, por ser tão seguidor de absurdos e mediocridades
que substimam os limites de sua própria inteligência.
Em outra ocasião...
- A sua obsessão, Satish, é quem o puxa pela orelha. Não
eu. As suas atitudes são as suas dúvidas.
- A minha vida é a lei dessa aldeia.
- A sua abnegação é a lei da sua vida.
-
Você é uma incrédula, que acredita na indiferença
da vida, se negando inclusive, a ela própria. Nega-se a se casar
comigo por futilidade da alma.
- Casar!? Eu?! Que bobagem, Satish. O meu Deus é diferente,
é aquele que pode ser visto.
- Não
vamos casar os deuses, Damini, mas a nós.
- O seu amor, é o seu Deus. A sua lei é a do mestre
Shiva, seu irmão. A minha lei, é como o meu Deus: eu
não preciso me defender dela.
-
Mas seu pai está morrendo, Damini. Você irá ficar
só. Os
aldeões passarão a ser os seus tutores se não se
casar. Serás de todos e de ninguém.
-
O mestre já é o meu tutor, Satish. Não percebeu?
Ainda que venha a ser através de você. Da possessão
sombria de meu pai, me encontro hoje nos domínios de Shiva. O mestre
já o escolheu pra mim. Se ao menos você não fosse
tão dedicado a ele, o meu sofrimento seria menor e a esperança
viável.
-
Você procura caminhos sem portas.
- Quê caminhos Deus traça, só Ele os entende,
meu amigo.
- Deus não escreve os seus erros. Você é quem
os repete.
- Eu, Satish!?
Você está procurando um erro para afastar-se do temor de
sua descrença.
-
Eu não sou ateu.
- A sua absoluta
crença é puro ateísmo, tudo para esquecer Noni.
A
sua fidelidade existe para não permitir-se crendo em um amor pagão,
de uma mundana, uma meretriz.
-
Noni nada tem a ver com isso. Noni amava o meu irmão, não
a mim.
-
Noni não amava Purandar. Noni amava a vida que ela tinha, a que
foi imposta que ela vivesse, e que você não teve coragem
de seguir os seus caminhos e nem de esquecê-la. Você ama tudo
o que Purandar ama.
-
Nunca amei Noni.
- Nunca admitiria amar uma meretriz. Pois saiba, que por muitas vezes,
eu quis ser Noni. Uma meretriz, mas eternamente satisfeita consigo própria,
até conhecer os domínios de Shiva.
-
Shiva nada teve a ver com os caminhos que Noni traçou. Se a infâmia
tornasse pelo menos, a vergonha tolerável para os aldeões,
tudo teria sido diferente para ela.
E a minha prova tornava-se cada vez mais insuportável, Purandar.
O aço e o fogo passavam por mim me atirando para o lado como
se o meu valor e respeito nunca viessem a existir. Mas insisti em
pressioná-lo...
-
Até que ponto temos que nos sucumbir às vontades dos homens
dessa aldeia, Satish?
-
Até atingir o fio que não ultrapasse os limites da dignidade.
Você está destinando o mesmo fim de Noni à você.
Você nem ao menos nega esse seu amor doentio pelo meu irmão.
-
...Sim, Satish... amo Purandar. Amei a sua violência, sua rebeldia,
sua agressividade desde o início. Amei a tempestade que nele habitava.
Sei muito bem o que ele queria de mim. Sei também, que provavelmente
me tornaria uma mundana como Noni. Mas ainda assim, ele me respeitava,
e não a esses valores falseados por uma máscara de verdade
absoluta do Mestre Shiva.
-
Tornaria-se uma meretriz?!
- Mil vezes a morte do que essa renúncia à vida que
hoje vivo.
-
Você não acredita em nada. Nem em você mesma, Damini.
- Você, por só
acreditar em mestres, é quem desconhece a segunda razão.
- Eu sempre fui um seguidor de mestres. Todos no mundo seguem os
mestres.
- Não.
Você sempre precisou de braços amparando-o.
- Mesmo para abandonar tudo e viajar, Damini, precisamos estar confinados
a alguma coisa ou a alguém. É a vida. Pouco podemos
transformá-la em sua essência. Ninguém atravessa
um oceano, se não se tem um navio. Você pode pensar
em tudo, mas se não souber calcular as marés, de nada
vai adiantar. As idéias são como o vinho: quanto mais
se toma, mais elas somem à cabeça.
-
As minhas idéias nunca me embriagaram, Satish. Você foi quem
me tirou Purandar, afastando-o da minha vida.
-
Tirei para lhe dar honra e um nome.
- Pois saiba
que uniu minha vida ao fio da morte.
Meados de 1889...
Querido Purandar...
meu pai morreu da febre que a guerra trouxe.
Deus fez dos homens um instrumento cortante, terrível e frio
para minh’alma. Me tirou de meu pai para me dar à Shiva. O mestre
me tirou de você para me dar à Satish. E Satish me devolveu
ao mestre, como quem entrega um cachorro ao dono. Tenho saudades de
Noni, Purandar. Você é o meu instrumento de fé.
Aceitou todos os fardos do pecado, toda infâmia e vergonha,
dando a vida pelo seu amor. Por amor à você e respeito
a seu irmão, ela se suicidou. Tirar a própria vida é
mais difícil do que renunciá-la, não é Purandar?!
O que eu vivo hoje não prova o meu amor?! Cada vez que me pego
distraída, o mestre está me observando:
- Aprenda, Damini, que a revolta não é uma arma eficaz,
mas sim traiçoeira, dizia ele tranqüilamente.
- Nada quero aprender
com as suas veias, mestre?
- Ainda verei
a sua rendição absoluta. Seja na
sua essência ou na aparência ou na força do tempo sobre
os atos.
- Se dê aparência você vive, Mestre, espelho eu
lhe darei, então.
-
Nada revela o sarcasmo. Veja o meu discípulo, Satish: ele vê
a pétala cair e ser levada pelo vento. Triste, mas resoluto. Perceba:
você não consegue quebrar a imagem do "mestre".
- O que quer de mim,
Shiva?
- As suas trevas
me fazem chorar, Damini.
-
Trevas?! Me liberte. Permita que eu vá embora. Desista de mim.
- Você
não me pertence para que eu designe os seus passos. Você
pertence a Satish.
- Eu não pertenço
à ninguém. Satish tem medo de mim.
- Satish sofre
por você.
- Você me deu a
Satish.
- Somente ele
poderá lhe dar a paz que tanto precisa.
-
Paz!? De Satish?! Satish me enlouquece com essa obsessão doentia
por você. Que paz pode me dar um homem que não existe sozinho?
Qual o tipo de paz que você pode me dar? Me deixe ir embora. Eu
amo Purandar.
- Purandar...
-
Sim. Purandar. Aquele que você admirava. Aquele que você não
conseguiu converter à nada, que acima de tudo não lhe desse
vida.
- Purandar pouco sabia
o que queria.
- Pare com essas
tolices. Não adianta me confinar a essa aldeia. Saiba que aqui estou
cavando a minha própria morte.
-
Por quê a morte é a sua obsessão, Damini?
- Porque é talvez
que somente nela que esteja a minha vida. Talvez nela seja mais fácil
encontrar Purandar.
-
Mas Purandar não a compreendia, amava somente a sua beleza, tanto
quanto Satish.
- Talvez eu prefira os homens que não se misturam entre o fino
e o grotesco. Satish não sabe o que quer.
-
Satish é o seu refúgio, Damini, mas você não
dá o devido valor. Satish é na verdade o seu instrumento
para nos ferir. Os aldeões querem que você vá embora,
já que a nossa razão nunca prevalece. Afirmam que você
é uma emissária da ilusão.
-
Da ilusão? Satish me deseja, isso não é uma ilusão.
Você me quer a seu lado, isso não é uma ilusão.
As suas verdades são frágeis, isso não é ilusão.
Os aldeões estão com medo do desejo, Shiva, isto não
é ilusão.
- Eu não me livro do barco, Damini, apenas mantenho-o à
tona.
- O seu leme é
forte o suficiente para manobrar a corrente?
- O meu leme é a minha crença, Damini.
- Até tu, mestre, tem um secreto desejo por mim.
- Não fui eu quem lançou a rede da ilusão em minhas
mãos, Damini.
-
Eu não vim por minha vontade. Todos sabiam da minha falta de fé.
Por quê tentar me prender nesse cerco de devoção?
-
Não me deixaram saída.
-
Se eu vim para dar prazer, que eu dê, mestre. Só não
espere que eu tenha prazer. Não passe o seu fardo para quem tem
menos condição de carregar do que você.
-
Eu me comprometi com seu pai, Damini.
- Pai?! Eu nunca
fui filha, Shiva. Como você espera que eu seja obediente?
-
Você tinha um lar, bens...
-
...e vocês nos exilaram no ‘Lago da Fronteira’, nos tirando tudo
que nos pertencia. Quando não tínhamos mais nenhum bem,
obrigaram meu pai a me entregar, como quem barganha com os comerciantes
do porto, e lhe agradou. Eu tinha a minha paz, e vocês me tiraram
o respeito, a piedade e a crença em minha vida.
-
Os valores, pelos quais fomos obrigados a tomar algumas atitudes, foram
transformados em nome da guerra, das necessidades...
-
Em nome da razão. A mesma que sustentava a minha vida e me disseram
que ela não poderia sustentar todo o peso da vida; a mesma que
provaram que era um abismo sem fundo; a mesma em que eu apoiava a minha
conduta e vocês disseram que ninguém poderia ser o único
apoio de si mesmo.
-
São fardos pelos quais temos que passar...
- Então é esse mesmo fardo quem irá me salvar.
Deus só virá a mim pelo meu caminho, Shiva. Eu
vim da liberdade para a escravidão.
-
Aproxime-se de Deus, Damini.
- Quanto mais vou ao encontro do seu Deus, mais Ele parece fugir
de mim.
- Esqueça
Purandar.
- Não
posso esquecer aquele que me deu a vida.
- Sinto muito,
Damini... Purandar não mais existe entre nóis.... morreu
da febre há dois dias.
Por
um instante, Purandar, a vida pareceu clara e Deus um pouco mais amigo.
O mestre jamais entendeu que a sua morte tornou a minha crença
mais tranqüila e fiquei feliz de sabê-lo morto.
Cartas
que nunca chegaram, passaram a ser confissões absurdas de um tempo
que nunca existiu. Eu que tanto persegui a morte, não percebia
que ela ia em sua direção. Foi aí que Satish pediu
para que eu escolhesse: abandonar a aldeia ou me casar com ele. Entre
a solidão pelo desterro e a submissão pela falta de opção,
aceitei.
Satish
mudou desde então. Para me salvar dos pecados passados, castigava-se
a si mesmo.
Eu
me tranquei em meu mundo, na aldeia que conduz o meu sangue e depois de
muito tempo sem o calor do sol, saí do meu refúgio. A terra
úmida me fez mal. Tive então de partir dos aldeões
em busca da saúde.
Embora fraca e desalenta, minha alma sorria por passar mais uma vez
pelo ‘Lago da Fronteira’. Satish ficaria em paz com sua penitência.
A fuga só é possível com a permissão
de Deus, não é Purandar? Se Deus pelo menos, tivesse
desviado o olhar para nós dois... quem sabe?
13
de Junho de 1890.
Querido
Purandar, lhe escrevo mas nunca lhe enviei uma só carta.
É como a minha vida. Só que agora é tarde demais
para reunir os destroços, para romper barreiras e para perder
tempo brigando com Deus. A minha secreta riqueza é aquela
que carrego comigo como triunfo, pois é a que irá me salvar.
Precisava de ares frios e boa alimentação. Mas me falta
fome e a sede que alimentava a minha vontade se esvai. Estou mais perto
agora, meu amor. Recolho a poeira dos pés e a levo comigo.
Foi tudo muito breve. Hoje eles choram por mim. Mas a luz que me
acende a alma não é a deles. É a de que seremos
um só em nosso próximo nascimento.
Extinta a chama, toda luz desaparece, de repente, como se ela nunca
tivesse existido.