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Kadish 2


Estranho pensar em ti que partiu de repente,
em fantasia e máscaras de Carnaval, ao tempo que
cruzo as alamedas brancas do cemitério do Caju
& meus olhos ardem ao sol branco do Rio de Janeiro
(frente ao túmulo de Tiradentes, guardado por um
soldado imóvel, de mármore negra e chapéu de aço),
enquanto os pássaros cantam na direção do morro de Mangueira;

eu mesmo, que desci do ventre de um pássaro metálico
só para te visitar, mas que evitava pensar em ti, cantarolando,
recitando em voz alta o Poema Sujo do Gullar (que eu não sabia
saber de cor), que evitava pensar em ti, enquanto o táxi cumpria
sua rota torta beirando o cais do porto e o cheiro podre de água podre &
seu ritmo de barco desgovernado, em solavancos
pelo asfalto úmido de tão quente; eu mesmo, úmido de suor,

que fazia questão de esquecer teu rosto, pois cada vez
que tentava lembrar o brilho de teus olhos e teu riso
branco, branco, como flor caiada sem espinho, lírio fulgindo
na manhã de inverno paulistano, refletindo tua aura
de luz, como se fosses um feixe de raios lunares,
estremecendo às emoções do dia, sem que um dia apenas
deixasses de sorrir para mim (ainda que chorasses pelos cantos); cada vez

que tentava te lembrar, era como se uma chaga se abrisse
em minha pele, uma ferida túmida, vertendo linfa, sem
estancar o líquido das lembranças, o pó das tuas palavras,
a doce vermelhidão de teus lábios, que se abriam feito pétalas e
derramavam chuva sobre a terra deserta e lançavam
um sopro de luz sobre as trevas do dia e pousavam suaves sobre
a minha fronte coberta do suor dos sonhos; eu mesmo

tentava deixar essas lembranças de lado para cumprir
um ritual, uma obrigação para com os mortos que os vivos
devem cumprir, sonhando trazê-los de volta à vida, de volta
ao tempo, elidindo fatos e memórias, dias, noites incandescentes,
ou horas de solidão, marchando rumo à Utopia, braços erguidos contra
o Deus que habita a alma do silêncio, da umidade, do clarão que povoa
as tumbas esquecidas no vale dos esquecidos; eu mesmo

que passo a mão sobre o mármore áspero de teu leito
eterno, e tento não te ver (mas vejo) recortada à cabeceira da cama, espiando os
passos da cadela pequinês sobre o tapete, com os olhos
semicerrados, como se a lâmpada do teto incomodasse a
tua retina frágil; e esta imagem irrompe à minha frente, miragem
no deserto carioca, flamejando, como o concreto ardente que transforma
a paisagem dessa cidade que já não é a mesma cidade da tua infância; eu

que agora coloco as flores (as brancas rosas que amavas) sobre
a pequena floreira junto à tua lápide, e à lápide de teu irmão
(que tanto amavas) e a de tua tia (que tanto te amava), e a do sogro
de teu irmão (que te contava histórias e te fazia rir e chorar), pensando
que a festa das almas não tem fim, como se o Além fosse uma festa sem fim
(ou pelo menos assim fosse na minha imaginação), imagem alegre
para me defender da perda, da ausência, da solidão enfim, para

tornar esta visita mais suportável, e ainda assim não é,
em meus devaneios, entre rezas cânticos de cânticos, lamentos e prantos
para outros defuntos, estás ali, à minha frente, pernas cruzadas
sobre o túmulo, sempre sorridente, feliz por me ver ao teu lado, e passas
as mãos afiladas sobre meus cabelos, procuras me consolar
da vida dos vivos, e me dizes que todo sofrimento tem motivo,
“e a vida é a busca dessa razão perdida”, e tens assomos

de vaidade infinita, em teus cabelos negros passas
as mãos afiladas, os longos dedos orvalhados, e me olhas (de ternura
são teus olhos) e me beijas (de maciez são teus lábios) e
me estendes o corpo em abraços (de doçura são teus braços), em aconchego, em clausura interdita, como se o Nunca-Mais não mais fosse que um espaço
que dominas feito ave em vôo, peixe n’água, sereia na pedra, ou
melhor, como se fosses ave, peixe, sereia da Terra do Nunca-Mais

e teu canto pudesse ser ouvido longe, pelos marinheiros-
filhos, como uma estrela-guia em pleno dia, farol em ilha
perdida, sirene de ambulância pela avenida socorrendo vivos
e feridos pela vida; como se tua voz soasse mais forte, nas
alturas das montanhas que cercam essa cidade, próximo ao
Cristo que vela teu sono e me observa molhando as flores, ajeitando
lápides, enquanto conversamos a língua que ninguém pode entender;

que saio agora, de costas para o portão dos mortos,
para que os espíritos dos mortos não me acompanhem
e me ajoelho, faço o Sinal da Cruz sobre o peito, e me perco
para além da Avenida Brasil, pelo Gasômetro, pelo Mangue
com suas putas nas janelas, pela Praça da Bandeira sem
bandeiras, com a alma tremulando entre as ruas esburacadas
e os botequins e os mendigos e os meninos com suas unhas sujas;

me perco pelos caminhos que você conheceu e cresceu e deixou
que seus cabelos longos, feito pássaros negros, cobrissem
as calçadas, pulando amarelinha em Maria da Graça, como
se a Infância fosse a tua Utopia (bem distante da minha),
ecoando, ribombando nos olhos como o relâmpago das noites
sem lua, sem estrelas, sem nada que uma escuridão funda, como
se fôssemos uma imensa tumba, faraós em enormes pirâmides;

me perco pela Presidente Vargas e vejo que teu rosto está no relógio
da Central, entre os ponteiros, como se fosse um doce sortilégio,
no relógio que marca as horas da vida, as horas que restam
da vida de cada um de nós; o relógio trazido por teu avô alemão,
que veio da Alemanha (estranho lembrar agora de meu bisavô
vendo teu rosto entre os ponteiros do relógio da Central)

fugindo da Grande Guerra, mas sempre sorrindo, cego mas ouvindo
histórias de sacanagem contadas por teu irmão na madrugada
quente do Rio de Janeiro dos anos 50, uma época de nuvens azuis,
barcarolas carregadas de amor rasgando os mares da Guanabara,
quando o amor era mais doce, mais simples e mais feliz,
quando o amor era sem culpa, como o vôo dos pássaros


                como o meu amor por ti.

Poema escrito por meu querido irmão, poeta, jornalista e médico, Ivan Miziara.



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