· 17º Capítulo ·
Estamos em 1955. É a época de ouro da música.
Não mais Glenn Miller e o swing invadem as rádios, mas sim o rock'n'roll e um jovem garoto
rebelde, lindo, mostrando a sua sensualidade: Elvis Presley.
O mundo via ainda com brilho o surgimento de uma nova mídia, a televisão. Poucas, eram as
pessoas que tinham um aparelho daqueles que transmitia imagens, vindas não sabiam de onde
e nem como podiam se projetar em suas casas. Mas era fascinante.
A rebeldia de Marlon Brando nos cinemas e a tristeza amargurada de James Dean, tomavam
as telas dos cinemas, os comentários nos bares. As pessoas estavam conhecendo o velho e
bom jeans, calça que seria modelo de jovens e as camisetas brancas que representariam
durante décadas, a jovialidade, sensualidade e o sex-appeal dos rapazes.
Foi nesse clima e auge do rock'n'roll, que enfim chegou a data do tão esperado casamento.
Minha mãe e seu noivo com as mesmas idades, 26 anos, foram para o altar, concretizar a união
que o destino entrelaçou há muito tempo, talvez, muito antes deles nascerem.
Um amor que sobreviveu a tudo e a todos, que sobreviveu ao tempo, às doenças e à saúde. Um
pacto de amor feito pelo destino, e não por eles. Eles eram a consequência.
Chegou o dia do casamento.
Meu avô todo arrumado, minha mãe linda, com o branco mais puro da alma, rodeada dos anjos,
enfeitada de grinalda-de-noiva.
Minha mãe estava aposentada por invalidez desde os 20 anos. O noivo, jovem médico, já estava
clinicando na cidade e não pensava mais em voltar ao interior. Porém, sua mãe, insistia em
encher-lhe os olhos com a prosperidade, sucesso, fama e dinheiro, que o interior trazia, rapidamente,
a um jovem cirurgião.
Ao entrar na igreja, ao lado de seu pai, minha mãe apertou os braços de meu avô e suspirou...
- O que houve, minha filha ?
- Não sei... por um breve instante, jurei ter visto a mamãe no altar...
Aquelas palavras soaram diferentes e antagônicas a ambos:
para minha mãe, era um presságio
feliz, de que sua vida iria melhorar e com a benção e proteção de sua mãe, aonde quer
que ela estivesse; para meu avô, era um presságio ruim, tanto que recebeu-o
com imenso pesar a ponto de não se divertir mais naquele dia e nem na festa do casamento.
A tristeza que o envolveu, logo foi reparada por todos e comentada de forma pejorativa pela
família do noivo. Pesavam-lhe as palavras e a visão da filha. Um sentimento de arrependimento
e desgosto invadia sua alma. Se pudesse voltar no tempo, teria desfeito a união.
Mas nada fez; nada disse.
Casaram. Ela e meu pai cumpriram sua parte com os deuses.
Minha mãe não sabia, naquele dia, mas a partir daquela primeira visão, estava começando a se
cumprir uma trajetória do seu destino, que iria envolvê-la para sempre no mundo sobrenatural.