· 12º Capítulo ·
E foi assim: um tempo em que minha mãe também conheceu a felicidade.
Os tempos mudaram naquela época tanto quanto a tempestade que agora se aproximava de mim.
Sua vida seguiu feliz. Depois de muitos tormentos, estranhas experiências e doenças, minha mãe
conseguiu se formar no colégio, que na época chamavam de "científico" e hoje seria, o terceiro
colegial.
Suas aspirações visavam a carreira de advocacia e para qual, começou a se dedicar diariamente.
Vaidosa. Destemida. Não desistia daquilo que almejava.
Estamos em 1946.
Rita Hayworth invade os cinemas mundiais com sua imortal "Gilda".
Minha mãe, assim como todas as moças da época, decide copiar o glamouroso vestido que a
atriz usava no filme.
Era a época das debutantes, dos grandes bailes de valsa, das grandes orquestras.
Glenn Miller havia falecido mas suas músicas e orquestra permaneciam vivos nos bailes
da época. "Moonlight Serenade" embalava os mais apaixonados com romantismo e delicadeza
que parecem ter existido somente naquela época.
Era pós-guerra. Hitler havia perdido para os aliados, mas havia deixado um rastro de dor no
mundo todo. Um sofrimento silencioso que marcaria a todos. Os que estiveram lá e os que
ficaram.
O açúcar faltava, o café era escasso, o arroz, feijão... tudo era difícil. Uma época em que
comer carne era um luxo dado a poucos.
Mas minha mãe estava completando dezoito anos e isso era motivo de alegrias. Uma alegria
que só sentimos ao estarmos livres de doenças. O resto se conquista. Esse conceito me acompanhou
a vida toda. Sempre que estava zangada ou deprimida por qualquer motivo financeiro, ela afirmava:
- Meu filho: tudo se consegue na vida; menos a saúde. Quem tem saúde, tem tudo.