· 9º Capítulo ·
De tudo, de todas as situações, minha mãe soube retirar alegria e vontade para continuar lutando.
Por todos anos, apreciou com total expressão de prazer, a sua goiabada com queijo, lembranças de
seus domingos ao lado de seu pai.
Pobre, já na miséria, visitava a filha todos os domingos no colégio interno e como sempre, só podia levar esse doce
caseiro e barato como presente.
Esses momentos, anos depois, eram tão especiais e apreciados por minha mãe, que acredito, talvez, lhe trouxessem a
lembrança de tempos difíceis, porém felizes. Embora não julgasse dessa forma, na época.
Mas alí, naquele internato, ela aprendeu muito. Com a vida, com as pessoas, descobriu a falta
que uma mãe faz em nossas vidas.
Suas grandes tristezas nesse período se resumiam na falta de
possibilidade de saída do colégio. Seu pai não podia buscá-la, sua tia tinha outros afazeres, sua
mãe não estava viva, e seu irmão não podia também sair do internato para homens.
Anos se passaram assim... até que um dia, o seu pai conseguiu emprego na pós-guerra em uma fábrica
de cerveja e descobriu como abrir o seu próprio negócio.
Os tempos começaram a melhorar pela segunda vez em suas vidas...
Retirou, primeiro, o filho do internato para ajudá-lo na cervejaria. Muito tempo depois,
esse filho iria condená-lo por não ter permitido que ele terminasse seus estudos.
A filha que quase estava se formando e parecia ter um futuro brilhante pela frente, ele preferiu que
terminasse e se formasse.
Ele, sim. A vida, não.
Um certo dia, minha mãe acordou com uma dor na perna, quase perto do tornozelo. Não deu muita importância. Porém,
a dor que parecia uma bobagem, se transformou em uma ferida pequena. Pouco tempo depois, uma ferida enorme. Logo em
seguida, em uma grande ferida aberta que nunca cicatrizava.
Seu pai, resolveu retirá-la do internato e interná-la no hospital, para que em breve continuasse
seus estudos. Falsas Esperanças.
A ferida tomou vulto maior chegando à exposição óssea. Uma bactéria desconhecida, estava atingindo o coração,
lhe causando grandes danos nas válvulas.
De uma moça exuberante, passou a uma moça magricela, anêmica, sem brilho, como que por encanto.
Minha mãe abandonou os estudos e ficou internada por mais de 8 meses em uma cama de enfermaria.
As posses financeiras permitiam que tivesse uma enfermeira "mais" atenciosa. Mas os médicos desconheciam
o motivo da doença e o que estava causando a ferida.
Um dia de muita dor e tristeza, minha mãe olhava para a janela da enfermaria e uma senhora negra, de
meia estatura, forte, chegou ao lado de sua cama e falou ao seu ouvido: