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· 8º Capítulo ·

Todas as economias guardadas, todas as conquistas, foram utilizadas e vendidas para ajudar no tratamento. Mas eram tempos difíceis. Tempos em que a segunda guerra mundial já se prenunciava nos jornais e rádios. Tempos de contenção. Tempos em que a medicina pouco sabia de curas e alívios.

Assim como seu filho, os seus delírios causados pela febre, a faziam pronunciar previsões mediúnicas... algumas nunca reveladas por minha mãe; outras, estranhos conselhos para um futuro cotidiano, do tipo " -... guardem açúcar..." -, coisas que somente depois, no auge da guerra, eles teriam compreendido, em vão, o que ela quis dizer.

Um certo dia, após três meses de sofrimento, delírios e dores, a mãe de minha mãe veio a falecer.
Não disse nada. Simplesmente fechou os olhos, em uma tarde de sol na enfermaria, deitada, plácida e adormeceu para sempre.

Todos se lembraram de suas profecias. Todos foram abalados. Mas como ela previu: " -... maus tempos virão...". E vieram.

Todos acharam que aquilo seria o momento pior de suas vidas, o caminho mais tortuoso, a morte, e talvez o fim de um período de dores. Mas de fato, aquele momento, foi só o começo.

O pai de minha mãe perdeu o emprego. Era muito para seu frágil coração: a perda do filho, a perda da esposa, a perda de suas poucas conquistas e a guerra.

Saíram da casa ampla e arejada, para uma vida muito mais simples, onde todos praticamente moravam em um lugar apenas de dois ambientes.

Não haviam mais os arcos de ritmo e alegria; não havia mais a sintonia entre a vida e o futuro.
A esperança que um dia fôra a âncora de suas vidas, não existia mais.

Sem ter como sustentar os dois filhos ou uma moradia, ele resolveu entregar as crianças para um colégio interno público, sob a custódia de uma tia, irmã de sua esposa.

Sem emprego, sem dinheiro, sem perspectiva, foi morar em um albergue público.
Seus dias eram tortuosos, entre a busca de emprego e o horário para voltar para o albergue.

Minha mãe relembrava com dor o momento da separação entre os dois, os olhos de tristeza, amargura e ela sem entender como poderia ajudá-lo, já que estava no seu destino essa confusa tarefa.

Anos depois, com mais maturidade e as feridas cicatrizadas, jurou construir albergues para os necessitados. Nunca conseguiu.

Os dias de seu pai eram indescritíveis, pois tinha que sair do albergue cedo e vagar pelas ruas em vão. Seu único objetivo era voltar no horário certo no final da tarde, para fila da instituição. Por muitas vezes, por causa das chuvas, não conseguiu voltar a tempo antes do albergue fechar e teve que dormir na rua.

Minha mãe sabia de tudo isso e à cada dia seu tormento aumentava.
Mas sua essência era outra e não perdia a esperança.




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