Site oficial de Ana Flávia



· 3º Capítulo ·

E acho que estou aprendendo...

Mas minha mãe aprendeu de uma forma muito diferente, o que me levou a crer nesses anos que de fato todo mundo só aprende vivenciando. Teorias são ótimas para debates, pesquisas... não para a vida.

E era assim que ela vivia: entre o que existe(ia) de verdadeiro e o que existe(ia) de dúvida e imaginário.

Ela contava que um de seus irmãos, o mais velho, tinha um "horror" gratuito pelo próprio pai. Não haviam motivos palpáveis para tanto ódio e a repugnância, antipatia, desprezo e repulsão do pai. Era mútuo.

Ambos viviam em estado de guerra diário.
A aversão de um pelo outro era tão grande que ao mesmo tempo que se evitavam sentiam a presença um do outro. As histórias de impressão e sentidos eram impressionantes, tal o grande nível de sensitividade.

O filho tornou-se boêmio para evitar estar no mesmo ambiente que o pai.
Acordava tarde e quando se aproximava o horário do pai voltar do trabalho, o filho saía e só retornava pela manhã. Por várias vezes, o pai estava sentado lendo seu jornal, quando comunicava para esposa:

" - Ele está chegando ! Eu sinto !"
E a esposa, até se acostumar, perguntava:

" - Ele, quem ?"
" - Seu filho !" -, o pai respondia. " - Seu filho !"
E no máximo quinze minutos depois, o filho chegava.

E a esposa e seus dois outros filhos se entristeciam com aquela cena inexplicável.

O filho, era alegre, descontraído, brincalhão, tocava violão, autodidata, cantava até "sentir" a presença do pai. Por vezes, estavam todos almoçando e o filho dizia:

" - Ele está subindo a ladeira... preciso sair."
E de repente, saía de casa e o pai chegava.

O pai era carinhoso com os outros filhos, alegre, amoroso, um homem trabalhador, dedicado à família, mas que desde o nascimento desse primeiro filho, tinha se tornado um homem estranho, diferente, de comportamento indistinto.

Porém, assim viveram na indiferença um do outro, na insensibilidade moral, na negligência interior, na inconsciência doentia até que uma grande peste atacou a cidade rapidamente com sua epidemia pouco curável. Era o tifo.




 Clique aqui para voltar para a página principal






Images cedidas gentilmente por Laércio Luz
Textos e imagens Copyright ® 1995 BMGV
© Todos os direitos reservados