· 1º Capítulo ·
Eu nasci.
Essa frase eu li em minha adolescência e nunca mais esqueci.
Foi em um livro que nos deram como lição escolar, para leitura adolescente. Oras. Aos
poucos fui descobrindo que, nada de tranquilo havia naquelas palavras. Foi nesse
dia que conheci a estória de David Copperfield do escritor Charles Dickens. A partir
de então, nunca mais consegui me separar da densidade dramática desse autor, como se cada obra sua, fosse sendo escrita sobre mim.
Talvez minha presunção tenha também nascido nesse dia.
Aqui estou eu em alto mar, a caminho de minha vida que tanto fugi e agora parece
tão consoladora. Tão confortável ao meu "eu", que me pego revivendo essas sensações,
visualizando memórias de "muito antes de nascer".
Eu pouco me lembro de minha infância. O que eu me lembro sempre tem uma relação
direta e infinita com minha mãe. Uma figura que era doce e frágil, que deve ter
nascido inocente como todos nós, mas que o mundo e as pessoas à sua volta foram
transformando, dia após dia.
Dizem que o mar é a grande mãe do mundo. A grande água da placenta, o grande
ventre do Universo. Sem Zambi, sem amor e dor, na ausência dos sentimentos que
nos tornam mais humanos e palpáveis, o que mais me distancia e me une a mim mesmo,
se não a associação direta dessas águas à minha infância ?!
O estrangeiro levanta as velas. Troca as dobradiças. Os mesmos hábitos contínuos e
certeiros envolvem sua rotina. Fico tentando entender se estamos perto ou longe...
mas em momentos como os de agora, me pergunto: tão longe ou tão perto de quê ?!
Mas essa é uma nova história que vou contar agora.