· 22º Capítulo ·
Zambi não estava com os homens em torno da fogueira e dei a volta percebendo que eles não estavam tão animados quanto das outras vezes. Comecei a me preocupar. Havia sangue, muito sangue em volta do fogo. Corri para "nossa" tenda e acordei de todas as minhas fantasias. Não haveriam mais torturas ou danças de guerra, nem silêncios nem estradas, Zambi estava no chão, cercada pelo velho, as duas crianças e aquela mulher que chorou uma vez por ela.
- O quê aconteceu? Eu perguntava incessantemente. Meu Deus, o que deixaram fazer com ela? A loucura dos homens não tinha mais limites. Quando me aproximei, me debruçando sobre seu corpo, vi que havia um punhal à sua distância. Me agachei a seu lado e ela, ainda viva, em um leve suspiro apertou minha mão com a sua ensangüentada. Eu chorava, implorava na língua dos homens que ela não me deixasse, que nunca mais a deixaria sozinha, nunca mais. Que eu iria protegê-la por todas as nossas vidas dali em diante, eu jurava, e jurava.
Zambi chorava, eu chorava lhe pedindo perdão, lhe pedindo para que não fosse ao mundo onde não poderia nunca mais tocá-la. Todos nós chorávamos. Foi quando num gesto de amor eu compreendi que aquela era a sua mãe, o ser mais importante para ela, sua morte, sua salvação e dor, e ambas preferiram que Zambi não vivesse mais a ter que viver aquela vida. Sentir na pele aquele horror de tempos em tempos.
Por vários anos eu tentei imaginar a cena de seu suicídio, ou a mãe matando a filha como salvação, talvez como uma autopunição. Pensei que podia Ter alterado os fatos. Ou, quem sabe, uma curiosidade mórbida que avassala o homem, que faz com que ele pare para ver a desgraças alheias. Não sei. Eu não era responsável por aquilo tudo mas me sentia assim e viveria assim por toda a minha vida. Tinha sido responsável por uma certa omissão através da história e por mais um peão inútil, manipulado pelo tabuleiro do destino.
Quem sabe, pensava, este não seria o único pecado real da humanidade? Fazer com que as coisas se repitam através dos séculos. Meus elos haviam sido quebrados. Aquela estranha cruz ao pé da árvore era o túmulo de Zambi. O sonho se cumpria.
Sonhos indecifráveis e perdidos. No seu devido tempo faria algum sentido? Dali adiante, o meu lugar sagrado, a minha terra santa, o meu refúgio em sonhos e em pesadelos, e, um dia, o meu desterro. Ali, naquele solo, estava parte de minha alma e de meu corpo. Naquele estranho mundo com aquela estranha mulher que havia conversado, findava um ciclo de decisões e emoções. Um andarilho não tem esperanças tem atitudes. E quanto a estas, mais hesitaria em tomá-las.
Despedi-me dos velhos, das crianças e de algumas mulheres assim que os soldados foram embora. Quanto a mãe de Zambi, sentia um misto de ódio por seu ato e compaixão pela sua dor, um dia entenderia a sua forma de julgamento e aí saberia aceitar o seu ato. Ou, talvez, jamais aceitaria.
Há o tempo de espera, sem dúvida, em que devemos aproveitar para nos encontrar-mos com nossas idéias; mas há essencialmente o tempo de agir, ainda que erremos, devemos tentar acertar sempre.
Parti sem olhar para trás.