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· 21º Capítulo ·

Vivia um enorme vácuo que justamente não poderia estar vivendo, mas era inevitável e alheio à minha vontade, alguns em desespero apegam-se aos espíritos e seus rituais para se segurar; eu, de modo estranho me revolto com eles e procuro esquecê-los. Porém, pressenti que deveria ir até a cidade do porto em busca de ajuda pois a espera não me levaria a nenhum lugar. Parti, sem que Zambi me visse e tentasse me impedir, com a certeza de que ela entenderia e tomaria cuidado.

Caminhei pela estrada durante quase toda a manhã, mas não precisava mais me esconder, e isso de certa forma me aliviava porque não tinha expectativas, não haveriam decepções. Só sofre decepções quem cria imagens ou têm opiniões pré formadas sobre alguma coisa ou alguém; quem não faz um julgamento antecipado não se surpreende. Achava-me medíocre por ter levado trinta anos para descobrir que a esperança nunca existiu, o que existe é a ação. Sempre tive idéias comodistas e medos para seguir adiante, por isso criei a esperança.

Esperava que acontecesse isso, acontecesse aquilo e nunca me tornava responsável por nada a acontecer. O mundo e as outras pessoas eram responsáveis por minha vida ser sempre igual. Afinal também não era responsável por mim mesmo.

- Se você não fizer, não existirá, falei comigo mesmo.

- A sua intenção somente pouco vale. Continuei.

Você acabará por viver uma vida em branco, acreditando que o destino cumpriu a sua parte, e quando acordar será tarde. Só que eu não cumpri a minha parte, não é essa a verdade? -, continuei divagando ao vento.

Você está vendo que a moral, a vida, os homens, tudo, é apenas um rascunho de que nada vale até você dar um sentido para tudo isso. Uma realização. Mas será que eu posso inventar as minhas próprias leis? Desde que a use para alguma coisa que construa e não prejudique a ninguém, porquê não?

Se sou livre para fazer o que quiser, todo mundo também é. Se todo mundo pensar assim. Se todo mundo pensasse assim, o único objetivo seria um ajudar o outro, ninguém se calando contra a dor e interferindo nas injustiças. E continuei divagando pelo caminho.

Cheguei ao porto e para o meu desespero vi que os soldados estavam começando a desembarcar e se preparavam para avançar até a aldeia. Comecei a correr, a procurar o tal marujo através do meu dialeto próprio. Devia estar bêbado em algum canto qualquer, pensei. Resolvi voltar correndo embora soubesse que o meu tempo seria inferior ao das carroças.

Mais tarde, já caía pelo chão, ofegante e desesperado.

- Zambi - pensava em desespero. De novo, não ?!

As vozes haviam voltado, murmuravam gritavam dentro de mim, mas não entendia e nem queria parar para decifrar o que diziam. O medo já quase não existia mais em meu coração e só tinha pressa de chegar. Corria. Acho até que cheguei a ver vultos pela estrada quando a noite começava a cair, mas não consegui identificar ninguém. Uma estranha sensação me vinha, nunca tinha acontecido isso comigo, a tal ponto de quase ver tantos espíritos de uma só vez. Você já fez um esforço além do que o seu organismo suporta? Pois bem! Chega a um certo instante que você começa a amolecer, a fragilizar-se e mesmo querendo acompanhar os seus sentidos, não resiste. Era o cansaço, um vácuo abrindo os canais mais sensitivo.

Já não conseguia mais correr, a raciocinar, apenas chorava compulsivamente. Pensava no que estava acontecendo comigo e nem conseguia mais andar depressa.

Não sei quanto tempo depois eu cheguei à aldeia, e sem saber se me escondia ou não, optei por não me esconder muito longe.




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