· 20º Capítulo ·
Não era nenhuma força do mal, pensava enquanto assistia a tudo aquilo, era apenas um ritual de magia da sobrevivência. Crianças com almas guerreiras. Aos poucos fui lhes ensinando a brincar de roda, a apertarem uns as mãos dos outros, a defender e amar às meninas e, não a maltratá-las como reflexo do que viam.
Não foi apenas um, nem dez ou trinta dias de danças e cantos que pareciam aflorar uma estranha vontade de luta na aldeia, tão forte dentro de mim que repassei a eles mas com receio das conseqüências. Poderia armá-los para que fugíssemos ou até mesmo roubar aqueles porcos e galinhas que esperavam tranqüilos a volta dos soldados, e isso começava a me aterrorizar. Não poderia deixar Zambi, nem os velhos nem as crianças sucumbirem a tudo aquilo novamente.
"Minha Zambi", pensei em voz alta e ela espantada me olhou. Havia um marujo em terra , no porto, pensei, como não havia pensado nele antes? Eufórico abraçava e beijava Zambi que me sorria estranhamente em retorno. Estávamos na tenda e resolvi sair . Ela puxou-me pelo braço e sentamos nos sacos que eram as camas. Não vou dizer que esqueci os horrores daquelas noites, mas tentei acreditar na força daquele momento e vivê-lo sem grandes explicações. Por alguns instantes, Zambi ficou quieta como se eu não estivesse ali, não permitindo por completo as minhas carícias.
Um gesto mais brusco meu e ela se contorcia toda. Procurei então, ser o mais suave possível, o mais terno, e ainda assim, por várias vezes, ela rejeitou a penetração. Dessa maneira, nos amamos.
Dali por diante ela viveria num mundo só dela, sabe-se lá por quantos anos, para tentar se adaptar e se resignar aos fatos, sem que eu pudesse ajudá-la, apenas lhe amparar. Talvez eu também representasse um mal também a ela inconscientemente, e de uma forma involuntária. Existia a vontade de me amar, assim como a sua necessidade da distância e do desapego também. Ambiguamente, estava tudo facilmente lógico, mas interiormente uma bomba implodira e, durante um bom tempo, as conseqüências iriam reinar a primeiro plano em sua vida, deixando emoções de repugnância e nojo tomar à frente. Eu também não sabia se poderia suportar: A mulher que eu amava veria em mim o horror de sua dor e seu objeto de desprezo, e onde muitos homens já haviam tocado. Um dia você está em casa, entra um qualquer e tira tudo o que você tem.
Rouba sua vida, seu corpo, entra em você como quem entra num quintal, num bar, tira tudo e vai embora feliz, rindo de sua desgraça. Você sobreviveria à próxima vez? E depois? A minha lógica se confundia às minhas emoções, confesso. Resolvi não pensar mais nos soldados e adormeci com Zambi apertando minhas mãos. Apática observando o alto da tenda.
A aldeia já parecia uma cidade quando resolvi ir até o porto. Avisei para Zambi através de uma língua própria meio minha, meio dela. Avisei que se alguém aparecesse que ela se escondesse e corresse para o porto. Contudo, ela não permitiu que eu partisse ou saísse de seu lado nos dois dias seguintes. Estávamos felizes, eu entendia, não se arrisca a sorte quando ela parece estar ao nosso lado. Por muitas vezes, busquei a voz de meu guardião ou do viajante, eram queridos companheiros que falavam a minha língua, que ironia. Não sonhava mais e minhas intuições me faltavam, parecia estar muito distante desta outra dimensão por algum motivo.