Site oficial de Ana Flávia



· 19º Capítulo ·

Pegaram todo o meu dinheiro, que no desespero nem lembrei de esconder. também para quê, não iria usá-lo mesmo. Talvez tenham ficado contentes por eu não Ter reagido e então me levaram para jogar fora as fezes e lavar toda a cadeia.

Fraco como estava, levei o dia inteiro sob a vigilância de um deles, como se eu agüentasse reagir. Saí. Olhei para o mar e pensei que o veleiro jamais voltaria. Olhei para o porto e só vi alguns bêbados e velhas prostitutas.

Zambi, pensei -, ela cuidaria de mim. E tomei a estrada de terra lentamente, feliz por estar voltando ao "meu" lar. Eu sei que não fui o que ela esperou que fosse, não a amparei quando ela mais precisou, não a defendi com medo para defender a minha própria vida mas lá estava eu, manco e quase cego pela luz do sol em busca do amparo seguro de quem havia demonstrado o seu amor e carinho por mim.

A gente sempre volta, pensei. Mais vale a certeza de um amor, do que a loucura de uma paixão. O verdadeiro sábio não encontra sentidos na paixão, não vê validade alguma naquilo que é momentâneo.

Caminhei mais do que o dobro do tempo que levei quando estava bem indo para o porto. Queria encontrar o viajante mas ele não apareceu. Quando cheguei, fui direto para a tenda de Zambi que arregalou seus olhos azuis e sorriu de modo desconcertado, talvez não pensasse em me ver novamente ou não estivesse me reconhecendo. É desta vez, desmaiei.

Devo ter acordado quase vinte horas depois, pois cheguei à noite, acordei e era noite, então dormi outra vez e acordei de manhã. Assim que consegui me localizar no tempo e espaço, passei a mão sobre o meu corpo que estava nú, o meu rosto sem barba e limpo. Estava muito fraco mas parecia um ser humano novamente. Olhei à minha volta tentei levantar a mão e não consegui. Algum tempo depois, Zambi chegou com uma sopa ou algo parecido.

Meu Deus! Pensei. Tão longe de casa e me sinto como se estivesse no colo de minha mãe. O que Deus poderia ter inventado melhor do que as mães?

Não conseguia me mexer, mas Zambi tinha uma paciência e ternura que eram incompreensíveis, ou próprio de quem ama. Eu não tinha certeza quanto a ela, porém, eu estava cada vez mais apaixonado e envolvido por tudo que a cercava. Seus olhos eram um alívio eficaz para os meus ferimentos, muito embora algumas vezes, ardiam insuportavelmente e eu tinha que gritar de dor. Meu estômago não tinha mais controle e eu evacuava e urinava sem parar, às vezes, sem que eu percebesse.

Os dias foram se passando, e Zambi à minha cabeceira pouco me deixava só. Ora rezando, orando, me alimentando, ou me fazendo engolir um chá estranho, ora talvez recitando poemas em sua estranha língua. Não entendia e preferia fantasiar. Eu queria lhe entender, me comunicar, conversar com alguém: há meses que eu não falava, nem discutia sobre nada e ninguém respondia uma só frase minha. Essa era uma estranha forma de tortura para mim.

Zambi era carinhosa, mas a gente sempre quer mais. Ela parecia se contentar com uma leitura quase diária de minhas mãos, às vezes me explicando alguma coisa - como uma boa cigana. Um dia acordei e lá estava ela lendo minhas mãos como se fora seu livro preferido. Eu até tinha um certo interesse, uma curiosidade peculiar dos seres humanos, em tentar entendê-la. Mas, me desinteressava à cada sensação de angústia que sentia ao fazê-lo.

E o meu passatempo diário passou a ser fantasia. Os dias se passavam, se passavam, foi então que comecei a me levantar, a sentar, a flexionar as pernas, e aos poucos já andava. Nesta noite, Zambi veio me cobrir e eu a segurei pelos braços. A sua primeira reação foi afastar-se rapidamente. Arisca, fui tentando conquistá-la trazendo-a para perto, tão perto para que pudesse beijá-la.

Não queria lhe fazer mal ou nada que ela não quisesse. Ela talvez não soubesse o que era o verdadeiro carinho e fui lhe ensinando aos poucos, devagarinho. Todos já dormiam e consegui aconchegá-la ao meu lado embora ainda estivesse arredia. Teria que ter calma porque Zambi não conhecia o amor, conhecia o estupro. À cada dia a mais, que passava ficávamos mais e mais próximos, andávamos abraçados, de mãos dadas, atraindo os olhares curiosos dos mais velhos e das crianças que riam sem motivo e tinham um ar de felicidade que nunca havia visto antes por ali. Caminhava pouco, porque meus pés ainda não agüentavam, talvez pela friagem da cela, das bolhas ainda sensíveis, ou sei lá. Só sei que depois daqueles tempos meus pés nunca mais foram os mesmos.

Certa manhã, levantei digamos, "inspirado" e resolvi reunir todas as crianças e ensiná-la a cantar. Haviam algumas palavras que viviam repetindo quando os soldados se aproximavam, e justamente à esta palavra, somei uma melodia harmoniosa e vibrante com repetições de ritmos, e pus-me a ensinar. A voz do coração com certeza é mais forte que a da dor, e eles a transformaram em uma marcha com seqüências repetitivas como uma marcha de paz, pisando firme no chão na cabeça do compasso. Era instintivo e aprendiam rápido com uma doce sede de vingança natural, não animalesca. Só bem mais tarde, entendi que era um canto de pureza, não de revolta.




 Clique aqui para voltar para a página principal






Images cedidas gentilmente por Laércio Luz
Textos e imagens Copyright ® 1995 BMGV
© Todos os direitos reservados