· 17º Capítulo ·
- É ilusão você estar aqui presenciando a tudo isso? A própria dúvida cria a mais e, o homem enquanto procura a resposta, acaba não fazendo nada. Contudo, quando o homem obtém uma resposta ele cria a imagem da certeza e o que acontece quando o espelho reflete o contrário?!
- Sei lá... Já não estava entendendo nada mesmo.
- Acreditamos na mentira que os outros afirmam e nos contam.
- Acho que não estou pronto para entender o que você está dizendo. Estou entendendo suas palavras mas não aonde você quer chegar.
- A teoria é o primeiro passo, mas é preciso, agir e tentar mudar as coisas. As reflexões hoje em dia têm que ser reais e eficientes. As pessoas estão morrendo, estão se matando e não têm mais como se defender.
Caminhamos por um certo tempo calados. Quando já podíamos ver as luzes do porto, ele perguntou:
- Se tivesse que viver da mesma forma novamente, viveria?
- Talvez !
- Então o seu espelho está refletindo o contrário? Se tivesse certo não precisaria mudar nada e a viveria novamente.
- Essa é uma perfeição que ninguém alcança.
- Será que não ?!
- Os homens precisam colocar a culpa sempre em alguma coisa para seu comodismo, indiferença e medo. Eu assumo que talvez nessa vida não consiga atingir essa perfeição.
- Geralmente a culpa recai ou em Deus ou no Demônio. El pára por alguns instantes. Acho que vou descansar um pouco por aqui, meu amigo. tenho andado muito nos últimos tempos e não estou tão acostumado -, estou um pouco velho demais para isso.... e, ele encostou-se em uma pedra.
- Eu fico com você.
- Não ! Siga o seu caminho.
- Mas não têm mais ninguém por aqui com quem eu possa conversar. Não tenho tanta pressa assim.
- Às vezes, levo muito tempo descansando, amigo... nos encontraremos no porto, com certeza.
- Mas precisamos dar um jeito de sair daqui, insisti. Duas cabeças pensam melhor que...
- Nem sempre, afirmou sorrindo.
- Você conhece alguém aqui que fale a língua deles? -, Já devíamos estar caminhando há duas horas e ele parecendo bem cansado, recostou na pedra e pareceu adormecer. Eu não sabia se descansava também ou se seguia o meu caminho. Embora hesitante, resolvi ir em frente, ele não poderia passar por mim sem que eu o visse.
O certo é que não o tinha visto chegar, pensei. Mas não cairia no mesmo erro de não observar bem as estradas. Segui em frente olhando para trás à cada segundo. Talvez ele fosse assaltado, os soldados o prenderiam e não veria mais àquele que poderia me salvar, quem sabe. Entretanto a uns quinhentos metros depois, me virei e que espanto: - Aonde ele estava? Pensei.
- Hei, você! gritei. - Aonde se meteu ? E resolvi parar de berrar antes que algum soldado me ouvisse também. Talvez estivesse atrás de alguma moita e voltei. E quanto mais me aproximava mais meu coração palpitava então, fiquei novamente hesitante. Um estranho pressentimento, um estranho medo naquela noite escura me apertava o peito. Cheguei bem perto da pedra e nem sinal daquele "meu amigo". Minhas pernas bambearam. - O que estava acontecendo de novo? Quem era ele? Nem parecia que antes ele estivera por ali. Virei as costas, correndo a caminho do porto.
Ofegante desesperado, cheguei em uma das esquinas do porto e me escondi num canto para descansar do susto. Uma fome bateu no estômago mas precisava esquecê-la . Tremia e um sonolência me veio próprio da calmaria após um nervosismo brutal. Após cinco minutos que me pareceram mais que trinta, levantei ainda zonzo não querendo acreditar no que pudesse ter acontecido, tentando esquecer essa possibilidade, me deparei com algo que fosse tão aterrorizador e deprimente quanto aquilo que imaginei estar acontecendo na aldeia naquele momento.
Quem sabe, por sorte, ou por um pouco que ainda restasse de compaixão na alma daqueles soldados, eles, por, poupassem Zambi. Contudo, aqui no porto todo iluminado, bêbados, soldados, prostitutas e cães vadios, faziam um comércio diferente: de meninas escravas.
Ao centro, o que talvez fosse a praça improvisada, todos rodeavam um tablado um pouco mais alto do que meio metro, avaliando suas presas e compras. Meninas, alguma ainda com sete ou oito anos, amarradas por cordas nos pés umas às outras, somente de calcinhas à exposição.
Procurei me aproximar tentando achar o veleiro e seu navegador, ainda com uma certa esperança de reconhecer o viajante como outro estrangeiro a bordo. Cheguei bem perto um pouco mais à distância do leilão, e observei: ele estava ao mastro no alto, olhando quieto e pasmo toda aquela cena. Os soldados e habitantes pareciam respeitá-lo ou não se importar com ele, talvez pelo rádio que tivesse a bordo… Alguém sabia de seu paradeiro. A sua expressão era como a minha: sem definição em palavras. Ele olhou para o lado e me viu. Acenei. Não era o "meu" viajante, pensei. Este espantado quase que despenca do mastro chamando um pouco atenção de alguns. Fiz sinal para que não se movesse e nem fizesse barulho.