· 15º Capítulo ·
Deixei a carroça no mesmo lugar, e fui eufórico ver Zambi. Quando entrei na tenda levei um susto. Além das crianças, dos velhos e Zambi, havia também a mulher que chorava na noite anterior. Por um instante, ela quase chamou os soldados para se proteger de mim, como se o mal fosse eu, ou, como se ela ainda tivesse alguma coisa a perder. E quase ao mesmo tempo percebi que ela pensou o mesmo que eu e desfez o rosto apavorado. Abrandou-se, olhou para o velho, que com um gesto a tranqüilizou.
Olhei para Zambi, pois era ela que me interessava e puder perceber que os seus machucados eram maiores e mais sérios do que pareciam à noite. Já tomavam a cor própria dos hematomas e ela estava ainda inerte com o olhar fixo.
Estava um clima estranho e eu, cansado, resolvi sair dali. Foi quando ela estendeu a mão. Me emocionei. Embora não entendendo o seu gesto, apertei-lhe a mão e saí ainda envergonhado. O ar me faltava e estava pesado. Um grande mal estar me embrulhava o estômago com vontade até vomitar.
Existiam diversas formas de analisar psicologicamente todo aquele sentimento que tomava conta de mim, mas, preferi apenas sentir. Olhei para o pôr-do-sol e vi, mais uma vez, que ali nada poderia se resolvido.
Tomei coragem e segui de volta para o porto sem olhar para trás. Estava cansado, as minhas energias se gastavam depressa porque não tinha como repô-las com aquela comida. E a noite caiu.
À noite, pensava, as coisas pequenas parecem enormes. Essa estrada bem poderia ser de fadas ou de bruxas, negando toda a realidade que o dia traz quando nasce.
Estava tendo de novo uma estranha sensação de estar sendo seguido, sempre tive essa sensação quando estava sozinho e a noite. Devia ter perguntado àquela voz, pensei. - Como vim parar aqui? -, falei ao vento.
- Ouviria a resposta ainda que julgasse vir de um demônio?
E de repente quase desmaiei. Já havia conhecido pessoas medrosas, mas admito como eu, nunca! Olhei para trás e vi juro, quer dizer é melhor não jurar, que vi um homem parecido comigo, usando jeans e camiseta e descalço. Olhei-o de cima a baixo e não compreendia. Eu não me movia de medo; quanto a ele não sei.
- Responda! Insistiu ele com voz branda. Era impressionante a sua semelhança comigo. Não conseguia responder. O que era aquele homem do Ocidente perdido como eu naquele fim de mundo? Pensei na voz que me falava ao vento e cheguei até a pensar que ele não era deste mundo. Quase tive um troço qualquer. Ele permanecia parado, me olhando, e imaginei que estivesse com o estrangeiro no veleiro.
- Tá louco?! Quase me mata de susto !
- Eu sou um viajante . E você?
Como não sabia de nada, ele não poderia ser do outro mundo -, pensei. Como veio para aqui, de onde você veio?
- Calma, amigo! Você está apavorado.
- E o que é que você queria, que eu achasse tudo isso normal? O que é que você quer? E ele deu um passo à frente, e eu um atrás.
- Você está com medo?! Ele se aproximava e eu me afastava. A noite já estava alta e com luz negra seu rosto parecia mudar a cada instante. Ele devia pensar o mesmo de mim, mas eu é quem era o medroso. Eu me calei.
- Que bom encontrar alguém como eu por aqui. Continuou, e eu não respondi.
- Qual é o problema? Você não ouviria a voz do demônio?
- Enlouqueceu !?
- Por quê?
- Porque é o demônio, ora!
- Simplesmente?! Amaldiçoaria antes de ouvir?!
- Só disse que não ouviria.
- Mesmo que fosse um conselho?