· 14º Capítulo ·
- Então estou nesse vácuo.
- O seu hoje, é conseqüência. Cada coisa tem a sua proporção, assim como o espaço que você ocupa na Terra. A sua intuição não é vã, é um instrumento do canal que lhe transmite. Aprenda a ouvir. O vento é o meu barco. É através, dele que eu venho e você poderá ir sempre que precisar de mim.
Isso explicava muitas coisas. Sempre um grande sopro à cada instante importante de minha vida.
Aos poucos, a luz foi enfraquecendo, o cheiro e a brisa do mar foram passando, e, em meio a tanta dor daquela terra havia um buraco de harmonia e amor que me fez encontrar a paz. Ainda apressado resolvi me arriscar e perguntar como iria embora dali e quando. E, ele me respondeu que iria demorar muito tempo para que eu pudesse voltar para casa definitivamente, porque o mundo era muito grande, o tempo infinito, e eu teria que correr por ele. Porém, o barco dos deuses esperava que eu conseguisse os remos e as velas primeiro, para que eu não ficasse à deriva. Afirmou que dali em diante, a minha casa seria aonde eu fosse, não me sendo permitido ter pátrias ou amores. Um errante solitário, para alguns; para outros, um homem e um chão; e, uns poucos iriam me reconhecer como um "andarilho e sua sombra".
Eu estava meio confuso, principalmente com essas últimas palavras, mas estava tranqüilo. Não era bom, admito, ouvir que a nossa escolha nos levaria a bons dias de solidão e que era uma troca estranhamente justa. Ainda não sabia discernir se era tudo uma grande metáfora ou, como realmente estava me parecendo: de que depois de tantos amores e paixões, viveria a partir dali talvez com sorte, um único grande amor que entenderia e iria me acompanhar nesta estrada.
Levantei meio desanimado, meio assustado, e fui direto para a tenda de Zambi.
Já passava do meio-dia, mas não sabia ao certo o horário. No meio do caminho percebi que uma das carroças ainda estava atrelada aos cavalos e se movimentavam lentamente pela estrada. Aos poucos, fui me esgueirando fazendo com que me seguissem afastando-os da aldeia. Pensei: poderia ir até o porto voltar antes mesmo que os soldados acordassem. Deveria existir alguém que pudesse me ajudar.
Os cavalos foram indo, indo, e quando perdi a aldeia de vista, subi na carroça e segui rapidamente. Já era tarde demais para voltar atrás e, calculei bem o tempo de ida e volta. Quando fui chegando perto do porto procurei um lugar seguro e escondido para a carroça. Fui pelos cantos e confirmei o que já havia deduzido: que quando eles estão na aldeia, obviamente o navio está atracado no cais.
O porto estava repleto de gente. Todos falavam alto, bebiam homens e mulheres, velhos e crianças, pareciam vindos de toda parte do mundo. Aquele cais deserto de outro dia nada tinha a ver com este.
Porém minhas roupas não estavam adequadas, teria que estar parecendo um marinheiro ou um soldado para não chamar a atenção. Tinha dinheiro, mas não tinha como usá-lo.
Um pouco mais adiante via-se atracado algumas embarcações menores, que pareciam não sair dali há anos. Talvez de pesca ou não. Um pouco mais à beira do cais, havia um homem estranho assim como eu. Estava perdido e tentando se comunicar. Resolvi chegar mais perto para que pudesse ouvi-lo. Quando me aproximei, quase sem acreditar, ouvi que era a minha língua que ele falava. O seu veleiro estava com escoriações nas velas e no casco e queria apenas ficar por ali para consertá-los, pedindo em vão a permissão ou comunicação do escritório responsável por aquele porto.
Coitado ! -, pensei. Alguns o achavam doido e fugiam dele, e ele repetindo a mesma coisa. Viajava sozinho pelos mares há oito meses e não ficaria ali mais do que três dias. Alguns soldados o observavam atenciosamente à distância e outros tinha a intenção de intimidá-lo para que desistisse. Ele, percebendo, logo voltou a trabalhar no veleiro. Não havia um clima amigável no ar. Mas para mim, ele era a oportunidade de ir embora.
À noite -, pensei, vai ser mais fácil chegar até o veleiro, só que os soldados da aldeia darão por falta da carroça, e só Deus sabe o que eles podem fazer quando descobrirem... além disso viriam atrás de mim e levariam esse estrangeiro junto. Quantas conseqüências por um só ato. Ele não iria ficar por três dias, só me restava voltar.
Voltei.