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· 10º Capítulo ·

Bem perto da aldeia, vimos que um soldado percebeu a movimentação e nos jogamos contra as moitas. Eu pulei por sobre as pedras e ele veio gritando uma língua diferente da de Zambi. Todos os guardas se alertaram e aproveitei para me distanciar mais um pouco. - E, Zambi? Pensei. Os soldados com armas empunhadas começaram a vasculhar, berrar, pareciam índios em atos de guerra. Estava desesperado por Zambi. Dois soldados haviam passado por ela que se esquivou bem, se escondendo deles. Aí veio o terceiro e a levantou como a uma presa em prêmio pela caça. Meu coração quase arrebentou de raiva e medo. Eles riam e falavam sua língua maldita. Empurravam-na de mão em mão em círculos. Seus olhos desesperados me buscavam, mas o que poderia fazer? E então, levaram-na com eles.

Esperei a noite cair totalmente para me aproximar da fogueira. Meus olhos não acreditavam. Uma falta de ar invadiu meu peito. Meu coração doía, literalmente. Chorei por não saber o que fazer.

Procurei a voz e não me vinha. Chamei por Deus ou qualquer outra coisa que pudesse ajudá-la naquele ritual maluco. Cheguei mais perto e a vi entre as mulheres escolhidas para aquela noite. De repente um dos homens que parecia ser o chefe dessa "tribo de soldados" se aproximou e a tomou nos braços. Zambi esperneou, gritou e apanhou até cair, como de costume entre eles. O meu ódio era grande. Eu sabia o que iria acontecer e não fazia nada. Ele a tomou pelos cabelos, rasgou-lhe a roupa, tirou um pouco de terra que havia de seus ombros, amordaçou-a e a violentou.

Meus olhos não se mexiam. Acredito que estive em transe hipnótico, pois sentia um formigamento nas pernas e não conseguia me mexer. Me amaldiçoei.

Sempre tive medo da incorporação de espíritos em mim. Contudo se naquele momento houvesse, algum espírito guerreiro por perto, queria que me tomasse o corpo e lutasse.

Outro soldado se seguiu ao primeiro. E outro, e, outro. Consegue imaginar isso? Não é estória. Ou melhor, é uma história real. Nada foi criado ou inventado para entreter essas linhas. Eu socava uma pedra mais próxima a mim fazendo com que o punho de minha mão ficasse em carne viva, a tal ponto de não conseguir dobrá-la.

Zambi não mais relutava. Não mais reagia. A sua dor transcendia o físico indo para a alma. Dor que ela carregaria através dos séculos. Por encarnações. Uma estranha sensação iria lhe acompanhar por toda eternidade e sempre se acentuaria quando ela presenciasse atos vis.

Porquê algumas pessoas sofrem tanto, enquanto outras não ?!

Algumas das mulheres não tinham nem a coragem de levantarem as suas cabeças. Outras pareciam achar tudo aquilo já mais do que o normal e não viam a hora de acabar para que pudessem voltar às suas tendas. Porém uma delas, contorcia suas mãos e o corpo à cada maldade que faziam com Zambi, e chorava com alma.

Depois de um certo tempo, eles terminaram e deram-se por contentes e satisfeitos. Pegaram suas mulheres e beberam até cair.

Zambi não se mexia no chão. Foi quando a mulher que chorava cobriu-lhe com alguns panos, enxugou suas lágrimas e a levantou. Porém um dos soldados a puxou pelo braço e Zambi caiu novamente. Aos poucos ela foi se refazendo, criando forças, e dirigiu-se a uma das tendas lentamente. Era um misto de vergonha e medo que ela parecia ter.

Dei a volta por todas as tendas e a vi entrar.

O que ela esperava que eu tivesse feito e que não fiz? Pensava. Estava com vergonha. A mesma que a dela, talvez, mas resolvi entrar na tenda.

Zambi não se mexia deitada no chão. Virou um pouco o rosto e me olhou. Não sabia o que seus olhos me diziam, estavam fixos. Não consegui encará-la e fugi de seu olhar.

Havia com ela um velho que a limpava com um pano úmido, e duas crianças dormindo. Tanto o velho quanto as crianças já estavam tão acostumados e resignados, que não demonstravam nenhuma emoção. Era triste, mas, a realidade era que a salvação deles só se daria com o fim de suas vidas. Era um mundo à margem, perdido, esquecido de todos. Havia também um vento que uivava pelas frestas da tenda. Era um canto de dor, um choro através dos anos atravessando fronteiras invisíveis do grande portal do tempo, transpondo pontes dos séculos.




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