· 8º Capítulo ·
Por muitas vezes, me vinha essa sensação de estar sempre acompanhado.
- Chegará o dia em que não conseguirá mais transcrever tristezas, e terá paz de espírito!. - Ouvi . Meu coração disparava. Mas, ainda, não olhava para trás.
Aquela cena não me era estranha. Nela, havia algo que me era comum. Resolvi mais do que depressa sair dali e ir para a aldeia.
Quando cheguei, todos pareciam me olhar estranhos, desconfiados.
Eu tentava me comunicar, mas era em vão. Estava meio irritado, o meu corpo doía, chutava os lixos que os soldados deixaram pelo caminho. Aquela Zambi que me enfeitiçara, agora me irritava e entediava. Ela percebeu e se afastou.
Era uma rotina empoeirada, e uma parte de mim estava sendo obrigada a ver o tempo passar. Nada ali iria mudar em mil anos, e me sentia um medíocre espectador vendo o curso de minha vida interrompido. Não sabia se estava colocando os pés pelas mãos, ou, mesmo se interferisse me tornaria mais um corpo perdido. Não era hora de filosofar e nem de criar histórias de ficção. Talvez a minha única missão fosse andar, observar o já observado, e descobrir o que já estava descoberto.
A minha visão não era singular, e tenho que admitir que a convivência com aquele lugar estava me transformando em alguém menos arrogante. Já não me dava tanta importância e nem tinha tanto interesse pelos meus assuntos ou em contar a minha vida e os meus feitos, como fazia incessantemente com os amigos na minha "antiga civilização moderna". Eu não era essencial, e era uma dura realidade admitir isso. Estava sentado em uma pedra perto da aldeia, pensando no que eu era, quando ouvi:
- Você é um homem e nada além disso - disse a voz. Eu tremi como se o chão estivesse se abrindo sob meus pés.
- Não adianta você sentar ao vento e não comungar com ele. Continuou a voz.
- Ô, meu Deus do céu, resmunguei. Só me faltava essa...
- A oportunidade de eu estar aqui, é a mesma de você poder me ouvir. Não se assuste, disse a voz.
- Quem é você ?
- Uma voz que também é sua de seu coração.
- O que é que você quer?
- A mente está lhe traindo. Continuou a voz. Não pense, pois assim você me mandará embora. Não use a sua razão.
- Não estou pensando nada, só estou com medo.
- O seu medo é a sua razão em exercício. Você se sente em perigo, mas não há perigo algum.
- Então o que é que você quer? Estava ficando nervoso.
- Você ! Disse a voz firme e branda. O mundo parecia estar escurecendo ou caindo. Lembrei-me de quando me contaram sobre incorporar um espírito. Era um misto de embriaguez alcoólica e de uma labirintite aguda.
Me apavorei e tentei me levantar.
- Olhe ao redor! Ordenou a voz.
- Não consigo! Não quero! -, respondi.
- É somente a minha voz, de uma alma que já foi sua em outros tempos.
Lentamente o mau estar foi passando e aquela voz foi me convencendo de que era apenas uma linda manhã à minha volta. Um sol forte que aumentava o medo.
- Não tenha medo de você mesmo -, continuou.
- Acho que estou mais calmo, só que não tenho coragem de me virar ainda.
Repeti a frase e percebi que a voz não estava mais comigo. Fui me virando, virando e realmente nada havia. O vento soprou forte como em todas as situações importantes em minha vida. Sempre prenunciava alguma coisa que infelizmente só sabia decifrar depois de acontecido. Zambi surgiu na minha mente como que trazida com o vento. Meu coração a sentia forte como se ela estivesse ali comigo.
Aprendi nesses anos, que a primeira impressão, jamais nos engana com os fatos ou com as pessoas, porque é a sensibilidade quem percebe e capta, sem análises racionais não permitindo que os fatos posteriores interfiram no julgamento. É como a intuição desse momento.
A voz perdeu a importância. Voltei para a aldeia atrás de Zambi, já que ela se tornara, para mim, mais importante.