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· 6º Capítulo ·

Era o quinto dia e Zambi chegou fazendo alarde, berrando, aos prantos a tal ponto que todos "correram" para as suas tendas apressadamente. De onde veio súbita energia? Ela me fazia sinais malucos, bruscos, falava rapidamente uma língua, para mim, ainda estranha. Tudo bem pensei. Entrei na Grande Tenda e resolvi ficar por lá. Mais do que depressa ela me arrancou me puxando fortemente, não só para fora da Tenda como para fora dos limites da aldeia. Depois de tanta insistência, resolvi obedecer.

Ficamos escondidos por mais de duas horas entre uma moita e algumas pedras, deduzindo que ali deveria ser seu esconderijo por algum motivo. Ela estremeceu, quando começamos a ouvir uma espécie de cavalos, carroças e, passaram por nós algo entre uns dez homens a cavalo, e cerca de umas quarentas mulheres divididas em três carroças. Eles pareciam um pouco embriagados. Berravam. Cantavam. Elas, de cabeça baixa, pareciam não ter vida, inertes, assim como os olhos de Zambi naquele momento. Preferi também não fazer um movimento sequer até ver o que iria acontecer. Eram soldados, e não sei o que poderiam pensar. Chegaram ao entardecer, e senti que esta seria uma longa noite.

- Quem são? Tentei me comunicar com ela de novo, mas Zambi se escondera tão aflita que parecia não querer nenhum tipo de conversa.

Zambi descansava, a lua estava radiante e um clarão diferente vinha da aldeia iluminando todo o lugar. Talvez fosse uma espécie de culto, cerimônia sagrada para eles eu precisava verificar.

Ao chegar mais perto da aldeia iluminada, todo o lugar era uma grande fogueira. Eu havia deduzido certo. Foi quando me dei conta de que era a primeira vez que via fogo por ali desde que cheguei.

Fui me aproximando sorrateiramente até encontrar uma encosta segura nas pedras. Meu coração descompassado tamanho o medo de ser descoberto. Porém, o que vi, preferia jamais ter visto. Algumas coisas na minha vida, eu sempre achei melhor deixar para a imaginação do que realmente presenciar.

A Grande Tenda era a que pertencia aos soldados, por isso vivia vazia e ninguém tinha a coragem de ocupá-la. Eram brancos, fortes e tão saudáveis que pareciam não combinar com a atmosfera do lugar. As mulheres eram negras, mulatas e bonitas. Estavam vestidas com tecidos limpos, misturando seda indiana com cangas africanas. Trouxeram comida, água, e um porco assava sobre o fogaréu.

De onde vinham todos eles? Pensava. O que representava tudo aquilo que parecia sobrenatural? Tinham armas e muita bebida. Onde há uma semana só se ouvia o som do vento e dos animais, parecia um grande delírio.

Com o tempo fui aprendendo a diferenciar o vento da manhã com o do meio-dia que trazia uma névoa de poeira, e fazia o ar ficar mais pesado. Já sabia dizer perto de que horas estávamos sem ao menos precisar olhar ao relógio.

Tinha aprendido inclusive, que quando as trovoadas começam, um tempo entre elas, determina o tempo da chegada da chuva. No mar os marinheiros precisam dessa referência para agilizar os materiais soltos no convés. Se da primeira trovoada para a segunda houver um intervalo de cinco minutos, e da segunda para a terceira este tempo começar a se reduzir sucessivamente, a chuva cairá logo. Caso contrário, poderá até nem a chegar por ali. Eu sei! Era ridículo eu estar pensando em tudo isso naquele momento -, e, aqueles soldados pareciam estar debochando de tudo que já tinha aprendido com a própria natureza. Por que não poderia me juntar a eles? Comer comida novamente, beber água limpa, emprestar um cavalo, ir embora e voltar para casa.

O que eu estava fazendo a no mínimo vinte mil quilômetros longe de casa, escondido no meio do mato em plena madrugada? Eu já não era mais um andarilho em busca de respostas, era um idiota que me julgava arrogante e mais importante do que todos, arrependido e, mais uma vez rodando em círculos sem chegar a lugar algum. Um acúmulo de tentativas e fracassos que me fizeram sentir um completo inútil e derrotado nos últimos dez anos de minha vida. Era resignado demais, às vezes imponente demais, e pensava tanto antes de agir, que por muitas vezes o tempo agia contra mim e já era tarde. Queria ser grande, mas não queria fazer esforço ou me dedicar para tanto. Foi quando percebi que os soldados mandaram as mulheres se despirem. E, elas, sem que eles tivessem reluta de alguma forma, se despiram. Eram dez soldados para vinte mulheres. Deduzi que as outras estariam nas tendas por algum motivo. Uma cena triste e deprimente.

- Por quê sempre quando vemos alguma coisa injusta demais, nos causa repugnância, mas tememos por nossa segurança e indiretamente - ao calarmos - compactuamos com as atrocidades?! Por quê não nos tornamos instrumentos de uma coragem divina, épica, e criamos qualquer senso de dignidade e nos rebelamos? É difícil não pensar em violência quando alguém violenta aquilo que não lhe é de direito. Responder à isso com sabedoria, seria inútil.




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