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· 5º Capítulo ·

As crianças que vi eram magras como um braço; algumas com estranhos ferimentos pelo corpo nú que pareciam soltar pus, uma gosma espumante -, outras, manchadas por algum tipo de peste; as menores eram rodeadas por mosquitos, feito abutres em carne morta. Não inventei uma só palavra. Era o horror da realidade. Não tinham forças para se abanar. Olhavam-me com olhos atentos e parados como se fizesse o maior esforço para estarem de pé. Não sorriam. Não falavam.

Não tinham uma sequer expressão no rosto . Não sabiam o que era comida, a não ser uma pasta de estranhas misturas. A água tinha cor e gosto de barro. Os velhos, na sua maioria sentados, pouco mexiam os olhos, me olhando com candura e resignação. Só com o tempo fui compreender que me olhavam com esperança. Deviam ter mais de sessenta anos, e as crianças todas com menos de dez. Cinqüenta anos era o vácuo entre aqueles dois mundos.

Todas as ciências das quais pude tomar conhecimento, toda a história que estudei, toda filosofia que consegui entender não haviam me preparado para tal visão. Não haviam palavras.

- Qual o tipo de emoção que resiste aqui? Pensei. Por quê eu?! Não poderia mudar nada com a minha presença. O sol alto, esquentava minha cabeça e um silêncio invadia a minha alma fazendo com que eu percebesse que eles, é quem mudariam a minha vida. Daquele instante em diante não poderia ter mais o mesmo eixo. Começavam os meus estranhos rabiscos e desenhos indecifráveis.

Haviam se passado três dias, e desde então saía dali. O quê haveria aldeia adentro? Engraçado que quando saímos dos limites de nós mesmos, temos sempre a grande capacidade de esperar o pior. Porquê teriam me dado a Grande Tenda? Foi quando comecei a observar melhor algo que me chamava a atenção há dias. Era um tipo de exército local. Um símbolo estranho estava desenhado em todas as tendas. Eu nem imaginava o que poderia significar.

Resolvi conhecer a aldeia minuciosamente. É curioso e simples, mas sempre acontece a mesma coisa: geralmente as coisas que estão mais perto de nós são as que nunca realmente percebemos. Seja algo importante ou não. Um inimigo à distância, é mais fácil de ser reconhecido do que aquele que está nos beijando a mão.

Uma fila de crianças seguiu-se a mim. Os velhos saíram à porta de suas tendas, e, percebi que aqueles que eu pensei que fossem poucos, eram na verdade numerosos. Quase uma centena. Dei três voltas pela aldeia, e algumas crianças eram tão fraquinhas, que ainda estavam cansadas na primeira volta tentando me seguir.

Porquê os outros países não interferem na vida dessas pessoas? O quê mais eles precisam ver? Pensava.

Eu era o único homem branco por ali, e por mais que tentasse controlar meus pensamentos, tinha uma arrogância de superioridade em mim, quase infantil, mas que não podia evitar. Eram tantas as descobertas, que me perdia no raciocínio. Eu mesmo não me acompanhava.

Coloquei a mão no bolso da calça, já transformada um shorts, e descobri um amontoado de dinheiro amassado e perdido.

Uma soma considerável que em qualquer outro lugar já teriam me matado para consegui-lo. Só que ali de nada valia a não ser para me fazer sentir mais seguro, de uma forma infantil mais uma vez. Mas eram esses os meus sentimentos. Não podia renegá-los. Estava ali por opção e poderia voltar a hora que quisesse com esse montante. E por quê não o fazia? Porque não virava as costas e ia embora? Não sei! Poderia inventar setenta coisas para entreter a história, enganar você e a mim. A verdade é que um estranho sentimento me segurava ali, apesar de por muitas vezes, sentir nojo de estar vivendo daquele jeito e com aquelas pessoas. Por mais que seja duro e nos conheçamos de uma forma que não queremos admitir, sempre é preciso reconhecer nossas fraquezas e, aprender a conviver com elas.




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