Site oficial de Ana Flávia



· 3º Capítulo ·

E lá estava eu, perdido no porto seguinte, algo como o sul da África, talvez, meio deserto, meio planície partiram. Aquilo não era sob forma alguma justo ou legal, a tal ponto de ignorarem as leis de um país. Um velho marujo vendo o meu desespero, e, já estava em terra, aposentado há muito tempo, deve ter visto coisas piores ou semelhantes nestes anos, se aproximou:

- A sua sorte é grande, meu amigo. Estranhei que falasse a minha língua, mas não consegui dizer nada.

- Geralmente esses marinheiros mercantes têm outros métodos. - continuou ele suavemente.

- Como assim?! - Precisava de uma resposta ou qualquer coisa parecida. Como posso ir embora daqui?

- Eles o devem ter achado muito especial. Algo feito um bruxo, ou...

- Bruxo?! -, interrompi.

- Os marinheiros são os povos mais místicos que eu já conheci.

- Existe algum consulado, um escritório qualquer coisa do gênero por aqui?

- Aqui?! - Ele sorriu ironicamente. Eu acho que eles o queriam à distância por muito tempo. Nunca soube de ninguém que tivesse saído daqui antes - o velho saiu murmurando e me deixou parado ali, extasiado.

- Como assim?! Gritei. - Me diga ao menos, aonde estou !

Não era a primeira vez que eu escutara tal frase, a respeito de ser um tanto estranho. Mas aquilo não estaria acontecendo comigo. Me apavorei. As coisas já não estavam como no início.

Olhei para os lados: era só aquilo. E tudo o que via eram algumas casas pobres, velhas e sujas à beira do cais. Não parecia ter habitantes ou comércio. - O que eu estava fazendo? Um andarilho não tem seu eixo no próprio centro, é um nômade. Porém, eu estava no meio de alguma coisa que não concebia. A realidade é que o único lugar que eu queria estar era no meu escritório trabalhando cheio de olheiras. Já não queria mais essa aventura. Queria um café, uma cama e uma televisão.

Devo ter ficado parado ali, à beira do cais, por quase uma hora inteira. Quando me dei conta não sabia aonde estava ou qual o tipo de língua que falavam. Foi quando percebi uma jovem negra com máximo uns vinte anos, me observando. Parecia estar ali, senão o mesmo tempo que eu, um pouco mais. Ela aproximou-se, tocou no centro de minha testa, e fez sinal para que eu a seguisse.

- Você pode me ajudar? Falei entusiasmado. Ela era linda. De uma cor única, de olhos azuis, ficando claro uma estranha mistura de raças. Seus cabelos eram lisos e compridos.

- Você pode me ajudar a sair daqui? Insisti. Ela abriu as palmas de minhas mãos e repetiu o mesmo gesto. O que ela estaria querendo me dizer? Pensei. As coisas estavam acontecendo tão depressa e muito diferente do que estava procurando.

Ela nada falava, e acho que até que mesmo que falasse não entenderia a sua língua, pensei. Contudo, seus olhos pareciam sinceros, puros.

Quantos olhos que nos parecem sinceros nos ludibriam, não é? O ser humano é o mesmo em qualquer tempo e lugar, era melhor me precaver. Como não tinha outra saída, resolvi segui-la.




 Clique aqui para voltar para a página principal






Images cedidas gentilmente por Laércio Luz
Textos e imagens Copyright ® 1995 BMGV
© Todos os direitos reservados