· 2º Capítulo ·
Depois de ter arrumado as malas, a casa, os pagamentos, deixar tudo em ordem, desci até o porto mais próximo. Um navio mercante seria a solução ideal para os meus gastos e para minhas aventuras. Em doze dias já tinha tudo concluído e legalizado. Partiria três dias depois como um empregado da cozinha, rumo ao Mediterrâneo. Era um homem qualquer a mais apesar de não me sentir assim. Engraçado como sempre nos consideramos melhores do que os outros. Enfim, partimos por quatro meses: eu, o barulho da casa de máquinas e as batatas. Quê segredo havia nas batatas que fazia suar minhas mãos?
Os marujos eram simples, despojados, estranhos serviçais resignados. Após o primeiro dia, depois das apresentações, nunca mais vi o capitão. Para ser sincero, nem um oficial, longe disto. Não era de minha alçada. Mal sabiam eles que eu estava ali por opção ou loucura. Porém o que interessa é que o ser humano tem uma hostil necessidade de oprimir a quem já se sente inferior. O chefe da cozinha e eu começamos a travar ofensas sutis. Talvez sentisse em mim uma ameaça, ou sei lá o quê. Não me julgava competente.
- Não pretendo ser cozinheiro, eu repetia sempre.
E ele ofendido esbravejava: - Mas já que está aqui, faça o seu serviço direito.
Talvez ele estivesse certo. Só que a maneira que ordenava... aquilo não era necessário. O homem se amedronta consigo próprio e na insegurança prefere destruir e humilhar. Seja lá o que ele tivesse dito aos outros, começaram a me ignorar. Novamente o destino me cobrava alguma coisa que nunca entendi.
Éramos agora eu, a casa das máquinas e as batatas, que triplicaram, e só haviam passado dez dias.
Quanto mar! Quanta água ! Será que invadirá mesmo o planeta um dia? Pensava. Divagava. Passava o tempo. O que mais poderia pensar senão bobagens? Mas estava triste. Como poderia mudar as coisas se estava vivendo a mesma vida que vivi em terra por trinta anos? Cheguei á uma conclusão: o problema era eu.
O mar não respondia, e, então uma noite veio o vento e a tempestade. A fúria dos deuses, como gritavam. O punho sagrado do senhor, sobre o nada em imensidão. Águas, raios, ondas gigantescas aquele navio, por um instante, não me pareceu tão seguro de tanto que inclinava.
Estávamos sobre a proteção de anjos e demônios naquele momento. Nada além deles poderiam nos ajudar. Estava escuro. Os faróis do navio acessos, todos desesperados. Um vazio sem fim. Os marujos percebendo que a tempestade se alongaria noite adentro, prenderam-se com uma estranha roupa às argolas fixadas no convés do navio, própria para não serem lançados ao mar.
Foram dezessete horas de pânico e desespero, onde com certeza eu não queria ver o mar tão cedo novamente e não via a hora de atracar num daqueles portos previstos. Como se não bastasse creditaram a mim a má sorte, visto que em oito anos daquela mesma rota, nunca pegaram tal "sangramento do mar", como eles chamavam. Que ironia! Me abandonaram no porto mais próximo.