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· 1º Capítulo ·

Eram quase quatro horas da manhã e mais uma vez meus loucos sonhos me acordavam pela noite: uma estrada de terra onde um homem negro me acompanhava calado. Descíamos um barranco e chegávamos a uma rua linda, quieta, arborizada com casas novas e brancas. No final desta rua, havia uma grande escadaria com centenas de pessoas transitando. Subindo e descendo. Gritavam por mim, comentavam o meu nome, mas nada parecia abalar o "meu guardião".

No tôpo, eu que tentava provar a uma dessas pessoas que, na verdade era de mim que eles estavam falando. Percebi que todos, inclusive o homem que me acompanhava seguiu para um lado oposto com a multidão, e via que estava debaixo de uma árvore estranhamente em cruz. Sempre que me voltava e virava para falar com a tal pessoa que me fez mudar de rumo disperso, eu acordava. Sempre e sempre no mesmo ponto há mais de uma década. Na noite escura, às vezes, fria demais, eram os rascunhos que me libertavam da falta de respostas.

O andarilho persegue sempre aquilo do qual ele foge. Mesmo quando anda por mares atravessando areias, abrindo tendas, ele não se cansa de procurar as suas respostas, e por muitas vezes, acaba desvendando grandes mistérios sagrados pelo tempo. Sua vida só tem início quando ele começa a se encontrar e aos tesouros escondidos em si mesmo. Verdades e mentiras contadas por séculos que ele aos poucos revela através de experiências que viveu entre os homens. Ele só torna-se um sábio quando descobre o segredo do viver e sua simplicidade sem função.

O conhecimento adquire-se, o sentimento por todas as coisas ele terá que encontrar ainda que rejeite algumas emoções, e a humildade, através de tantas quedas, fracassos e decepções, cairá sobre sua cabeça fazendo-o se reclinar. Infelizmente, o destino é implacável.

Mas como posso eu posso amar a quem me trai ? Pensei. A quem me inveja, a quem me debocha e me humilha sem que eu me torne hipócrita? Não posso! Se tenho que escolher entre esse amor e a verdade, prefiro a última. Prefiro ausência de caráter que não faça mal a ninguém, do que a um caráter vil.

Um certo dia, como esses de insônia, olhei nos olhos daqueles que trabalhavam comigo e percebi que ninguém ali jamais havia respondido às minhas dúvidas. E nem iria responder. Resolvi desistir daquilo tudo. O que mais me amedrontava era dar o primeiro passo, como sempre. Havia uma certa tristeza em não poder voltar e ter que arrumar um outro emprego depois de tantos anos. Era um vazio. Ouvia estranhamente sempre vozes desde a infância, que agora se calavam.

O que não valeria a pena? Pensei. Olhei ao redor mais uma vez e senti que a partir dali seriam conseqüências de atitudes minhas que desenhariam uma estrada ou não, um destino ou não. Assim como os nômades que acreditam em conexões de eventos. Abri a porta, desci a escada e, desta vez saí. As ruas não eram diferentes, uma rua após a outra… era tudo igual. Eu mesmo não me sentia diferente, quem sabe, por ter a certeza de sempre poder voltar. Isso sempre nos fortalece um pouco.

Fui em frente. Essa é a estória que vou contar agora.




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